Machado de Assis

1839–1908

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839–1908) é, para a maior parte da crítica, o maior escritor da literatura brasileira. Filho de um pintor de paredes — neto de escravos alforriados — e de uma imigrante açoriana, perdeu a mãe cedo, teve pouca escola formal e aprendeu quase tudo sozinho, como aprendiz de tipógrafo e revisor antes de virar funcionário público.

Foi poeta, cronista de jornal por décadas, autor de teatro, crítico literário e, sobretudo, contista e romancista. Em 1897 tornou-se o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, cargo que ocupou até morrer.

Esta página reúne o que o ReadPro tem de Machado — três romances da fase madura — e serve de ponto de partida: quem foi, como a obra dele mudou ao longo da vida, o que se repete de livro para livro e por onde vale começar.

Trajetória literária

Os primeiros romances de Machado — Ressurreição (1872), A Mão e a Luva, Helena, Iaiá Garcia — ainda seguem a moldura do Romantismo: enredos de amor, mal-entendidos e casamento, contados por um narrador que organiza tudo para o leitor. São livros competentes, mas presos a uma fórmula.

A virada acontece em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado abandona o enredo sentimental e adota uma prosa curta, digressiva, irônica e sem ilusões, narrada por um defunto. É esse livro que a história literária costuma marcar como o início do Realismo no Brasil — embora o próprio Machado nunca tenha assinado manifesto de escola nenhuma.

Seguem-se Quincas Borba (em livro, 1891) e Dom Casmurro (1899), que com Brás Cubas formam a chamada trilogia realista, e mais tarde Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Em paralelo, os contos — reunidos em volumes como Papéis Avulsos e Várias Histórias — trazem alguns dos seus textos mais lidos, como “O Alienista” e “Missa do Galo”.

Marcas da escrita

Ironia
O humor de Machado quase nunca é gratuito: serve para expor a distância entre o que os personagens dizem de si e o que de fato fazem.
Narradores em quem não se deve confiar por completo
Brás Cubas está morto e sem reputação a defender; Bento Santiago escreve décadas depois, já convencido de que foi traído. A história chega sempre filtrada por um interesse.
Digressão e conversa com o leitor
Capítulos curtíssimos, desvios, apóstrofes ao leitor, brincadeiras com a própria forma do livro. O modo de contar é parte do assunto.
Memória e reconstrução do passado
Vários narradores de Machado recompõem a vida à distância; o tempo entre viver e narrar deforma o que se conta.
Aparência e vida social do Segundo Reinado
Casamento por interesse, favor, filantropia de fachada, ambição: Machado observa a elite do Rio imperial de perto e sem sermão.
Ceticismo diante das ideias grandiosas
Filosofias que explicam tudo e consolam de tudo — como o “Humanitismo” de Quincas Borba — aparecem para serem postas à prova, não para serem defendidas.

As obras no ReadPro

Dom Casmurro

1899. Bento Santiago reconta, na velhice, o casamento com Capitu e a suspeita de traição. Como tudo passa pela voz dele, o livro nunca confirma a acusação — é o caso clássico do narrador não confiável na literatura brasileira.

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

1881. O livro que abre a fase realista de Machado: um “defunto autor” conta a própria vida em capítulos curtos, com ironia e digressões, e faz o balanço de uma existência sem grande feito.

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Quincas Borba

Publicado em livro em 1891. O professor Rubião herda a fortuna — e a filosofia — do amigo Quincas Borba, criador do “Humanitismo”, e é aos poucos explorado na corte. Sátira do oportunismo e das ideias que justificam a força.

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Por onde começar

Não há uma ordem certa para ler Machado — as três obras do ReadPro se sustentam sozinhas e podem ser lidas em qualquer sequência.

Se a curiosidade é pela ruptura de forma e pelo humor, Memórias Póstumas de Brás Cubas é a porta de entrada natural: é onde a voz machadiana aparece inteira pela primeira vez. Para quem se interessa mais por narrador, memória e ambiguidade, Dom Casmurro costuma ser a escolha, e é o título mais discutido em sala de aula. Quincas Borba interessa a quem quer ver a crítica social e a paródia de filosofia — o “Humanitismo” — em ação.

Uma boa combinação é ler Brás Cubas e Dom Casmurro em seguida, para comparar dois narradores que contam o passado à distância: um já morto, o outro vivo e magoado.

Ler e entender

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