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Memórias Póstumas de Brás Cubas

por Machado de Assis

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Sobre este livro

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, foi publicado em folhetim na Revista Brasileira em 1880 e em livro no ano seguinte, pela Typographia Nacional do Rio de Janeiro. É a obra que abre a fase realista de Machado e, por convenção, o Realismo na literatura brasileira.

A premissa é incomum: quem narra é um morto. Brás Cubas, membro da elite fluminense do Segundo Reinado, escreve as próprias memórias depois de falecido e chama a si mesmo de “defunto autor”. Livre da necessidade de agradar a quem quer que seja, reconstrói a vida com ironia, digressões e capítulos curtíssimos — o livro abre, antes mesmo do primeiro capítulo, com uma dedicatória “ao verme que primeiro roeu as frias carnes” do seu cadáver.

O resultado parece leve e é impiedoso: a biografia de um homem que teve dinheiro, tempo e instrução e não fez nada de relevante com isso — e que, ao longo do livro, expõe a própria vaidade e os preconceitos de classe sem perceber que os está expondo.

O texto de domínio público usado pelo ReadPro preserva a ortografia da época — grafias como “Braz Cubas”, “philosopho” e “systema” aparecem tal como impressas em 1881, sem modernização. Você pode ler o romance inteiro aqui e voltar a este guia para acompanhar a análise.

  • Idioma: pt
  • Assuntos: Clássicos da literatura brasileira; Realismo; Narrador defunto; Sátira social
  • Fonte: Project Gutenberg · ID no Project Gutenberg 54829 · Domínio público

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Resumo

O livro começa pelo fim. No capítulo “Óbito do autor”, Brás descreve o próprio enterro, numa tarde quente de agosto de 1869, com cerca de onze amigos presentes. Só então recua para narrar a vida, da infância à morte.

Menino rico e mimado, Brás cresce numa família de posses do Rio e é educado sem rigor; ainda criança, maltrata Prudêncio, um menino escravizado da casa, que usa como “cavalo”. Na juventude, arruína-se com a cortesã Marcela, que o ama, nas contas dele, “durante quinze meses e onze contos de réis”, até o pai o mandar estudar em Coimbra.

De volta ao Brasil, corteja e abandona Eugênia, moça pobre que rejeita por ela ser coxa de nascença. Em seguida, o pai lhe arma um casamento e uma carreira política com Virgília. O arranjo fracassa: Virgília casa-se com Lobo Neves, político ambicioso e supersticioso. Anos depois, Brás e Virgília mantêm um longo caso adúltero, acobertado por Dona Plácida, a agregada pobre que eles instalam como caseira da casa dos encontros.

Pelo caminho, Brás reencontra Quincas Borba, antigo colega de escola que enriquece por herança e vira filósofo, criador do “Humanitismo” — uma doutrina que explica toda dor e toda desigualdade como parte de um plano cósmico. Brás também tenta a carreira política, sem sucesso duradouro.

Quer ainda inventar o “emplasto Brás Cubas”, um remédio que lhe daria fama, e morre antes de concluí-lo, de pneumonia, aos 64 anos. Quincas Borba, mais tarde, enlouquece, repetindo que sua filosofia consola de tudo.

No capítulo final, “Das negativas”, Brás faz o balanço da própria vida: não alcançou a fama do emplasto, não foi ministro, não teve filhos — mas também não sofreu certas dores, como a morte de Dona Plácida ou a loucura de Quincas Borba. O saldo, conclui quase satisfeito, é que “não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. É a última frase do livro.

Contexto literário

Machado de Assis (1839–1908) nasceu no Rio de Janeiro, era neto de escravos alforriados, autodidata, e foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Até 1880 escrevera romances de feição romântica, como “Iaiá Garcia”.

Memórias Póstumas marca a virada. Machado abandona o enredo sentimental de mocinhos e vilões e adota uma prosa cética e digressiva, herdeira declarada de Laurence Sterne, Charles Lamb e Xavier de Maistre — no prólogo “Ao leitor”, assinado pelo próprio Brás Cubas, ele fala em “fórma livre” e em “rabugens de pessimismo”. Este livro, Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) formam a chamada trilogia realista.

A diferença em relação a Dom Casmurro, o romance mais lido da trilogia, está na posição do narrador: Bento Santiago está vivo e quer se justificar; Brás Cubas está morto e, segundo ele mesmo diz, não tem nada a perder. Os dois, porém, contam o passado à distância, e cabe ao leitor medir o quanto acreditar em cada um.

O narrador morto e a liberdade retrospectiva

Brás faz questão de distinguir “autor defunto” de “defunto autor”: não é um escritor que morreu, é um morto que resolveu escrever. Para ele, a sepultura foi “outro berço”, e a pena foi molhada “na tinta da melancolia”. A própria dedicatória do livro — “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver” — já avisa o tom: um livro escrito de dentro da morte, sem pressa e sem reputação a zelar.

Essa posição não torna Brás automaticamente sincero ou confiável — apenas livre de certas consequências sociais. Ele mesmo sugere isso ao imaginar Virgília lendo o livro décadas depois e jurar-lhe que “a morte não me tornou rabujento, nem injusto”: uma afirmação de franqueza que, vinda de um narrador tão interessado em causar boa impressão até depois de morto, o leitor tem toda razão de não aceitar sem exame.

Livre de reputação a zelar, Brás pode ser franco sobre a própria mediocridade e sobre a hipocrisia da sua classe — mas “franco” aqui não é sinônimo de “neutro”: é ele quem escolhe o que contar, como contar e o que deixar de fora.

Vaidade, privilégio e ponto cego moral

O emplasto anti-hipocondríaco aparece já no capítulo II e volta no último: é o projeto que daria a Brás fama duradoura, “o primeiro logar entre os homens, acima da sciencia e da riqueza”. Ele nunca questiona se o remédio funcionaria — o que importa é o nome “emplasto Braz Cubas” estampado na caixinha. A vaidade, não a utilidade pública, é o motor do projeto.

O episódio de Eugênia expõe esse mesmo ponto cego com mais clareza ainda. Brás corteja-a com genuíno interesse — elogia sua inteligência, sua franqueza, seus “olhos pretos e tranquillos” — até notar que ela “coxeava um pouco”; ela mesma, sem rodeios, explica: “sou coxa de nascença”. A partir daí, o próprio Brás narra: “o peor é que era coxa”, chama-a de “Venus Manca” e, apesar de beijá-la e deixá-la crer em casamento, já pensa em como recuar por causa da deficiência dela e da sua origem ilegítima.

O romance não comenta esse comportamento; apenas deixa Brás narrá-lo com uma franqueza que se volta contra ele mesmo. O leitor vê a vaidade e o preconceito de classe operando em tempo real, justamente porque o narrador, sem perceber, os expõe ao tentar justificá-los.

Amor, casamento e ambição social

Virgília não é simplesmente “o grande amor” de Brás: é prometida a ele por arranjo familiar e interesse político, e sua escolha de casar com Lobo Neves — mais bem posicionado na carreira pública no momento — é também uma decisão estratégica, dentro de um mundo em que o casamento é, para uma mulher da sua classe, praticamente o único instrumento de ascensão e segurança disponível. Anos depois, ao manter o caso com Brás já casada, ela administra reputação, risco e desejo simultaneamente — habilidade que o romance mostra sem necessariamente aprovar.

Lobo Neves, por sua vez, não é só “o marido traído”: é um homem de ambição política real, supersticioso a ponto de recusar uma presidência de província por causa da data de nomeação, e cuja carreira e casamento são, para ele, projetos sociais entrelaçados — o romance não lhe dá acesso interior suficiente para saber o quanto ele desconfia do caso.

Marcela, a cortesã da juventude de Brás, é apresentada quase inteiramente pelo valor que ele diz ter gasto com ela — “quinze meses e onze contos de réis” — uma contabilidade que diz mais sobre como Brás mede afeto do que sobre quem ela realmente era. O romance permite entrever, nas entrelinhas dessa mesma contabilidade, uma mulher cuja sobrevivência dependia precisamente de saber explorar esse tipo de homem.

Escravidão, Prudêncio e a violência naturalizada

Menino, Brás usa Prudêncio, um escravizado da casa, como “cavallo de todos os dias”: põe-lhe rédea na boca, monta-o, açoita-o com uma varinha — e quando o menino geme “ai, nhonhô!”, Brás responde “Cala a boca, besta!”. O romance narra a cena sem melodrama, como uma travessura infantil entre outras.

Anos depois, já adulto, Brás avista na rua um homem livre açoitando um escravo — e reconhece Prudêncio, alforriado havia anos pelo próprio pai de Brás. Prudêncio agora possui um escravo seu, a quem pune do mesmo modo, com as mesmas palavras (“Cala a boca, besta!”), que aprendera a apanhar quando criança.

Brás, o narrador, não trata a cena como horror: chama-a de “gaiato, fino, e até profundo”, interpreta-a como Prudêncio simplesmente “transmittindo” os golpes recebidos, e comenta, logo em seguida, que gosta de “capítulos alegres”. É essa complacência narrativa — não a violência de Prudêncio em si — que o guia examina de perto: a cena não sugere que a pessoa escravizada seja, de algum modo, tão responsável pela escravidão quanto quem a possui; sugere que a violência é a única linguagem de poder que a hierarquia escravista ensinou a Prudêncio, e que Brás, ao tratar isso como uma anedota espirituosa, revela o próprio distanciamento moral de quem nunca precisou pensar na escravidão como sistema — só como pano de fundo doméstico.

Humanitismo: a paródia dos sistemas totais

Quincas Borba expõe o Humanitismo a Brás como um sistema filosófico completo: um princípio único, “Humanitas”, presente em todos os homens, explicaria a guerra, a fome, a dor e até a inveja (que Quincas Borba chega a chamar de “uma virtude”) como manifestações necessárias e, no fundo, boas. Para provar a “sublimidade” do sistema, ele aponta o frango que acabou de almoçar — cujo milho foi plantado por um africano escravizado, transportado num navio construído e conduzido por outros homens — como exemplo natural da ordem que descreve, sem jamais questionar essa cadeia de trabalho forçado que sustenta seu almoço.

Mais tarde, ao verem dois cães brigando por um osso sem carne, Quincas Borba declara o espetáculo “belo” e amplia a lógica: em algumas partes do mundo, diz, são pessoas que disputam ossos com cães. A cena termina com a chegada de um bilhete real — de Virgília, pedindo ajuda para Dona Plácida, que está passando fome de verdade. O romance justapõe a filosofia abstrata da fome à fome concreta de uma mulher pobre, sem precisar comentar a distância entre as duas.

O Humanitismo não é a filosofia de Machado nem uma tese que o romance endossa: é o sistema de um personagem que morre louco, repetindo suas próprias fórmulas como consolo. A sátira mira, através dele, qualquer sistema totalizante do século XIX que explique a desigualdade como lei natural e dissolva a culpa de quem já está por cima.

Forma fragmentada, ironia e o leitor

São 160 capítulos, muitos com menos de uma página; a numeração desta edição chega a CLX. O narrador interrompe a história para conversar com o leitor, provocá-lo, acusá-lo de pressa. Há um capítulo, “O velho diálogo de Adão e Eva”, feito quase só de reticências e pontuação, sem frases — o gesto mais visível de um livro que trata a própria forma como assunto.

Brás também se dirige diretamente a Virgília como leitora hipotética (“Tu que me lês, se ainda fores viva... Virgília amada”) e compara cada fase da vida a “uma edição, que corrige a anterior”, até a “edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” — uma metáfora que retoma a própria dedicatória do livro e amarra forma, morte e memória numa única imagem.

A digressão não é enfeite: é o método. Ao interromper, desviar e comentar a própria escrita, o romance impede o leitor de esquecer que está lendo uma construção deliberada — feita por um narrador com interesse pessoal em como a própria vida vai soar.

Fracasso, legado e o balanço final

No capítulo final, “Das negativas”, Brás faz a contabilidade da própria vida com o vocabulário exato de sua classe: um balanço de perdas e ganhos. Não alcançou a celebridade do emplasto, não foi ministro, não teve filhos — mas também não sofreu a morte de Dona Plácida nem a semi-demência de Quincas Borba como perdas próprias, porque, afinal, não eram dele.

Somando tudo, ele diz esperar “nem míngua nem sobra” — mas encontra, ao final, um pequeno saldo: não ter tido filhos significa não ter transmitido a nenhuma criatura “o legado da nossa miséria”. É uma conclusão ambígua, não uma afirmação simples de felicidade: pode ser lida como lucidez amarga sobre a própria vida vazia, ou como mais um gesto de um homem que sempre soube transformar ausência em vantagem, até no último parágrafo.

Leitura relacionada

  • Dom Casmurro — O romance mais lido da trilogia realista de Machado. Bento Santiago também reconstrói o passado à distância, mas está vivo e quer se justificar — ler os dois lado a lado mostra o que a posição do narrador faz em cada livro.

Personagens principais

Brás Cubas
Narrador e protagonista. Herdeiro de uma família rica do Rio, sem profissão firme nem projeto que conclua. Conta a vida depois de morto, com uma franqueza que expõe, sem sempre perceber, a própria vaidade e os preconceitos da sua classe.
Virgília
Prometida a Brás por arranjo familiar e interesse político; casa-se com Lobo Neves, mais bem posicionado na carreira pública, e anos depois mantém com Brás uma longa relação adúltera. Hábil em administrar reputação, risco e desejo dentro dos limites que a posição de mulher casada da elite lhe permite.
Lobo Neves
Político ambicioso, marido de Virgília. Supersticioso a ponto de recusar um cargo por causa da data de nomeação. O romance não revela o quanto ele suspeita do caso da mulher com Brás.
Quincas Borba
Colega de infância de Brás, reduzido à mendicância e depois enriquecido por herança. Inventor do “Humanitismo”, que expõe a Brás com lógica minuciosa. Termina louco, convencido de que a própria filosofia consola de qualquer coisa. É o protagonista do romance seguinte de Machado.
Marcela
Cortesã por quem o jovem Brás se arruína. Amou-o, na conta dele, “quinze meses e onze contos de réis” — uma medida que revela mais sobre a forma de Brás enxergar o afeto do que sobre ela. Reaparece depois, envelhecida e desfigurada pela varíola.
Dona Plácida
Agregada pobre, de vida marcada por trabalho duro, viuvez e abandono, instalada por Brás e Virgília como caseira da casa dos encontros. Conta a própria história a Brás em detalhe; ele responde olhando para a ponta do próprio sapato. Morre na miséria — o custo humano, quase invisível, do caso do casal.
Eugênia
Moça pobre, filha ilegítima de Dona Eusébia, coxa de nascença por sua própria explicação direta. Brás a corteja com interesse real, mas a abandona ao decidir que a deficiência e a origem dela pesam demais para o casamento que ele lhe deixara supor. Reaparece, anos depois, pobre, num cortiço.
Prudêncio
Menino escravizado na casa dos Cubas, usado por Brás como “cavalo” e açoitado por ele quando criança. Liberto pelo pai de Brás, aparece anos depois espancando o próprio escravo com as mesmas palavras que ouvira quando apanhava. Uma das imagens mais duras da obra sobre a transmissão da violência escravista.

Temas principais

Vaidade e o vazio da ambição
Brás persegue fama (o emplasto), amor (Virgília) e poder (a Câmara) e não fixa nada. O balanço final é uma lista de negativas apresentada como saldo positivo.
O narrador morto e os limites da franqueza
Morto, Brás não precisa agradar ninguém — mas essa liberdade não o torna neutro nem confiável; apenas livre de certas consequências sociais.
Aparência e hipocrisia da elite do Segundo Reinado
Casamento por interesse, adultério administrado, filantropia de fachada: o livro mostra o funcionamento social sem moralizar.
Escravidão como engrenagem naturalizada
A violência escravista aparece sem alarde — em Prudêncio, nos criados sem nome — e é a naturalidade com que o narrador a conta que a denuncia.
Humanitismo e a paródia dos sistemas totais
A doutrina de Quincas Borba explica qualquer desigualdade como lei natural — o romance a expõe através de um personagem que morre louco repetindo-a.
Vanidade da distinção social
Eugênia é rejeitada, Marcela é medida em contos de réis, Virgília é escolhida e trocada por cálculo — o valor de cada pessoa, para Brás, tende a se resolver em termos de status.
Forma como sentido: a vida como edição
Brás compara cada fase da vida a uma “edição” que corrige a anterior, até a “edição definitiva” dada de graça aos vermes — a forma fragmentada do livro é, ela mesma, parte do que o livro diz sobre a vida.

Passagens importantes

Dedicatória — “Ao verme”

Antes do capítulo I, o livro traz uma dedicatória: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.”

É o primeiro sinal do tom do livro inteiro: mock solene, escrito de dentro da morte, que troca a dedicatória convencional (a um mecenas, a um amor) por uma imagem grotesca e cômica ao mesmo tempo.

Capítulo I — “Óbito do autor”

O livro abre com Brás já morto, descrevendo o próprio enterro numa tarde de agosto de 1869 e os poucos amigos presentes.

Define a regra do jogo: a vida será contada de trás para frente, por quem já sabe como tudo acaba e diz não ter mais reputação a defender.

Capítulo VII — “O delírio”

Em febre, antes de morrer, Brás sonha ser levado por um hipopótamo à origem dos séculos e encontra uma figura que se diz Natureza, ou Pandora, que lhe mostra o desfile das eras.

É o centro filosófico do romance: a Natureza é indiferente ao indivíduo, e a vida humana, vista do alto, é repetição. O tom grandioso contrasta de propósito com a pequenez da biografia que se segue.

Capítulos XXXII–XXXIII — Eugênia, “coxa de nascença”

Eugênia explica a Brás, sem rodeios, que é “coxa de nascença”. No capítulo seguinte, Brás narra sua própria reação: “o peor é que era coxa”, e chama-a de “Venus Manca”.

É a cena mais direta em que o narrador expõe, sem perceber, sua vaidade e seu preconceito de classe — logo antes de deixá-la supor casamento e depois abandoná-la.

Capítulo LXVIII — “O vergalho”

Adulto, Brás vê na rua um homem livre açoitando um escravo e reconhece Prudêncio, alforriado anos antes. Prudêncio pune o próprio escravo com as mesmas palavras que ouvia quando apanhava de Brás menino.

Mostra a violência escravista se transmitindo através da hierarquia, não a responsabilidade se igualando entre escravizador e escravizado — e expõe o distanciamento moral de Brás, que chama a cena de “gaiato” e “profundo”.

Capítulo LXXIV — “Historia de D. Placida”

Dona Plácida conta a Brás sua vida de trabalho duro, viuvez e abandono, incluindo o medo de acabar mendigando na rua.

Brás responde ao relato olhando para a ponta do próprio sapato — a imagem mais econômica do livro sobre a indiferença de quem, momentos depois, vai se aproveitar da pobreza dela.

Capítulos CXVII e CXLI — “O Humanitismo” e “Os cães”

Quincas Borba expõe sua filosofia a Brás usando um frango que acabou de comer como prova do sistema; depois, observa dois cães brigando por um osso sem carne e chama o espetáculo de “belo”.

Mostra o Humanitismo como sistema que naturaliza fome e violência em tese, bem antes de o romance justapor a essa abstração a fome real de Dona Plácida.

Capítulo CLX — “Das negativas”

No último capítulo, Brás soma o que a vida lhe deu e o que não sofreu, e conclui pela lista do que não teve: não foi ministro, não fez obra, não teve filhos.

A frase final — não ter passado adiante “o legado da nossa miséria” — fecha o livro com um saldo apresentado como ganho. É a ironia da obra condensada numa linha.

Perguntas para reflexão

Use as perguntas para guiar a sua leitura — não há respostas prontas.

  1. Por que Machado faz o narrador morrer antes de contar a história? O que a voz do “defunto autor” pode dizer que um narrador vivo não poderia — e por que isso não o torna automaticamente confiável?
  2. O episódio de Eugênia expõe a vaidade de Brás. Em que momentos exatos o texto deixa essa vaidade visível, sem precisar dizer diretamente que ele está errado?
  3. Virgília é frequentemente resumida como “o caso de Brás”. Que escolhas e limites concretos o romance mostra para ela, dentro do papel de mulher casada da elite?
  4. A violência de Prudêncio liberto contra o próprio escravo repete a violência que ele sofreu quando criança. O que isso revela sobre a hierarquia escravista — e o que não deveria ser concluído dessa cena?
  5. O Humanitismo é levado a sério pelos personagens. Como o romance faz o leitor lê-lo como crítica, e não como tese do autor?
  6. Os capítulos curtos e as digressões atrapalham ou constroem o sentido do livro? Escolha um capítulo curto e explique o que ele faz ali.
  7. Brás compara a vida a uma sucessão de “edições” que se corrigem até a “edição definitiva” dada aos vermes. Como essa imagem conecta a forma fragmentada do livro à dedicatória inicial?
  8. No balanço final, Brás lista o que não teve e o que não sofreu. Por que ele chega a um “saldo” positivo — e essa conclusão convence você?
  9. Compare a posição de Brás Cubas com a de Bento Santiago em Dom Casmurro: os dois contam o passado à distância. O que muda por Brás estar morto e Bento, vivo?

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