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O Cortiço

por Aluísio Azevedo

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Sobre este livro

O Cortiço, de Aluísio Azevedo, foi publicado em 1890 e é o romance mais lido do Naturalismo brasileiro. A influência de Émile Zola, sobretudo de “L’Assommoir”, é assumida: o livro quer observar a vida pobre do Rio de Janeiro como quem estuda um organismo.

A história acompanha a ascensão do português João Romão, dono de venda que enriquece explorando a companheira Bertoleza e erguendo, cômodo a cômodo, uma estalagem que se enche de trabalhadores, lavadeiras e imigrantes. Essa habitação coletiva — o cortiço — é o verdadeiro centro do romance.

O livro contém representações de raça, escravidão, gênero e sexualidade típicas do Naturalismo do século XIX, incluindo generalizações que o próprio narrador apresenta como lei natural. Este guia cita esses trechos apenas quando necessário à análise, sempre atribuídos ao narrador e ao seu tempo — nunca como fato ou como voz do ReadPro.

O texto de domínio público usado pelo ReadPro reproduz a quarta edição (H. Garnier, 1897), não a primeira (1890); a ortografia da época é preservada — grafias como “captiveiro”, “escripto” e “commoda” aparecem tal como impressas, sem modernização. Você pode ler o romance completo aqui e voltar a este guia para acompanhar a análise.

  • Idioma: pt
  • Assuntos: Clássicos da literatura brasileira; Naturalismo; Cortiço e trabalho; Raça e classe
  • Fonte: Project Gutenberg · ID no Project Gutenberg 69187 · Domínio público

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Resumo

João Romão começa do nada: funcionário de um vendeiro, herda a venda por dívida de salário e se lança à labuta com “delírio de enriquecer”. Bertoleza, quitandeira vizinha, mulher negra escravizada por um velho cego residente fora do Rio, já juntava sozinha o dinheiro da própria alforria quando o companheiro dela morre. João Romão ganha sua confiança, assume o controle do seu dinheiro e, tempos depois, forja com as próprias mãos uma carta de alforria — usando até um selo reaproveitado para parecer oficial. Bertoleza, iludida, passa a viver e trabalhar como se fosse livre, sustentando com o próprio corpo a ascensão dele.

Ao lado mora Miranda, comerciante português com sobrado, esposa (Dona Estela) e um dote que sustenta o próprio crédito comercial — o contraponto burguês que João Romão inveja e, aos poucos, imita.

O cortiço cresce e fervilha: a Machona e as filhas, o velho avarento Libório, o casal Bruno e Leocádia, Pombinha — moça instruída, prometida a João da Costa por interesse da mãe em escapar da pobreza.

A chegada de Rita Baiana muda o equilíbrio do cortiço. Jerônimo, operário português até então sóbrio e disciplinado, encarregado da pedreira, apaixona-se por ela, afasta-se da mulher, Piedade, passa a beber e a gastar as economias, e participa da morte de Firmo, o capoeira que vivia — de forma marcada por ciúme e violência — com Rita. Piedade, abandonada, afunda no álcool.

Pombinha se casa, mas numa visita à casa de Léonie, sua madrinha e cortesã de luxo, é isolada e assediada por ela; o episódio a marca profundamente. Mais tarde, deixa o marido e passa a viver da própria sexualidade na cidade — não como “queda” isolada, mas como mais um capítulo de uma vida em que outros decidem, o tempo todo, o valor e o destino do seu corpo.

Um incêndio quase destrói o cortiço; ele é reconstruído maior e mais “decente”, agora chamado Avenida São Romão, com inquilinos de renda mais alta — os mais pobres são empurrados para fora. No fim, João Romão, rico, arma casamento com Zulmira, filha de Miranda, para entrar de vez na burguesia. Bertoleza é o obstáculo vivo: ele avisa os antigos donos dela, finge surpresa diante dos empregados quando eles chegam para buscá-la, e a entrega. Cercada pela polícia, compreendendo com total lucidez que foi enganada, ela se mata com uma faca de cozinha — no instante exato em que uma comissão de abolicionistas chega, em trajes de gala, para entregar a João Romão um diploma de “sócio benemérito”.

Contexto literário

Aluísio Azevedo (1857–1913) nasceu em São Luís do Maranhão, foi caricaturista e jornalista e depois entrou para a carreira diplomática, abandonando a ficção. “O Mulato” (1881) já o colocara como nome do Naturalismo; O Cortiço é a obra madura dessa linha.

O Naturalismo leva o Realismo a um extremo: parte da ideia de que o comportamento humano é determinado por hereditariedade, raça e meio, e trata o romance como demonstração dessas “leis”. Por isso a natureza e o ambiente ganham peso de personagem, e as pessoas aparecem muitas vezes como tipos ou temperamentos — inclusive por meio de generalizações raciais que o romance apresenta como ciência da época, e que este guia trata como ideologia histórica, não como fato.

Vale distinguir de Machado de Assis, contemporâneo de Azevedo. Em Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas, o Realismo de Machado é psicológico e irônico, centrado na consciência de um narrador. Em O Cortiço, o foco é social e coletivo, e o narrador observa de fora, com pretensão científica — o que não faz dele uma testemunha neutra, mas um narrador com uma tese a defender.

O cortiço como personagem coletivo

Azevedo descreve a estalagem como um ser que nasce, cresce e adoece. A cena mais citada é a do amanhecer: o cortiço “acorda”, e o formigamento de gente lavando, cozinhando, brigando e cantando é narrado como quem descreve a germinação de uma planta ou o despertar de um formigueiro.

Essa linguagem — que compara pessoas a animais e a vegetação — é escolha de método, não descuido. Para o Naturalismo, o indivíduo pobre é parte de uma massa movida por instinto e necessidade; o estilo zoomórfico traduz essa tese na frase, inclusive nos momentos mais decisivos da história — a própria Bertoleza, no instante final, é descrita reagindo “com impeto de anta bravia”.

O contraste com o sobrado de Miranda organiza o livro: de um lado a habitação coletiva, barulhenta e amontoada; de outro, a casa burguesa, silenciosa e preocupada com aparências. João Romão passa o romance olhando para o sobrado e, no fim, muda-se simbolicamente para aquele lado.

João Romão: acumulação, exploração e ascensão

A fortuna de João Romão não nasce de talento comercial isolado: nasce de furto de material de construção, de anos dormindo sobre o próprio balcão para não gastar, e, sobretudo, da apropriação sistemática do dinheiro e do trabalho de Bertoleza. O romance detalha o método: ele se oferece como confidente da vizinha enlutada, ganha sua confiança, torna-se “o caixa, o procurador e o conselheiro” dela, e chega a manter um caderno chamado, literalmente, “Activo e passivo de Bertoleza” — o corpo e a vida de uma mulher tratados como contabilidade.

Chamar isso simplesmente de “ambição” ou atribuí-lo à nacionalidade portuguesa de João Romão simplifica o romance: o texto mostra um mecanismo específico — confiança, dependência financeira, ausência de qualquer proteção legal para Bertoleza — não um traço de caráter nacional. O contraste com Miranda, também português e também calculista à sua maneira (o casamento por dote, o título comprado com prestígio), reforça que o alvo da sátira é a lógica da acumulação e da respeitabilidade, não uma nacionalidade.

A ascensão de João Romão é, do início ao fim, uma tradução em dinheiro e status daquilo que ele tira de outras pessoas: primeiro o terreno e o material, depois o trabalho livre de Bertoleza, por fim a própria Bertoleza, quando ela deixa de lhe ser útil e passa a ser um obstáculo social.

Bertoleza: escravidão, trabalho e a fraude da alforria

Antes de conhecer João Romão, Bertoleza já labutava pela própria liberdade: pagava mensalmente ao seu senhor ausente uma quantia fixa (o “jornal”) e guardava o resto para comprar a alforria. É nesse momento de vulnerabilidade — recém-viúva, ainda escravizada, com economias e sem proteção — que João Romão se insere, primeiro como confidente, depois como administrador de tudo o que ela ganha.

A “alforria” que ele lhe dá é uma fraude material e documentada: o próprio texto afirma que a carta foi obra do próprio João Romão, com um selo reaproveitado para simular oficialidade. O senhor verdadeiro nunca soube de nada — apenas que sua escrava havia fugido. Bertoleza, iludida, passa a trabalhar ainda mais, agora acreditando trabalhar para si mesma, quando na verdade segue juridicamente escravizada e financeiramente dependente do homem que a enganou.

É importante não abrandar isso com eufemismos: não se trata de uma “empregada” ou de uma “companheira” em sentido comum — é uma mulher escravizada, mantida em escravidão por fraude deliberada, cujo trabalho não pago financia diretamente a ascensão social do homem com quem vive.

Naturalismo, raça e generalização narrativa

O romance atribui explicitamente traços de caráter a categorias raciais, como se fossem leis da natureza. Ao explicar por que Bertoleza se uniu a um português, o narrador afirma que ela agia assim “como toda a cafusa”, que “não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente o homem n'uma raça superior á sua”. Sobre Rita Baiana, o narrador diz que ela era “voluvel como toda a mestiça”. Em nenhum dos dois casos isso é uma opinião de outro personagem: é o narrador falando como quem enuncia um fato científico.

Este guia cita essas frases porque apagá-las seria esconder o que o livro realmente diz — mas elas não são fatos sobre pessoas reais, nem sobre as próprias personagens fora da lógica do romance: são a aplicação, em prosa, das teorias raciais pseudocientíficas do final do século XIX, que tratavam raça e mistura racial como determinantes de caráter. Uma leitura contemporânea observa essa lógica como ideologia histórica a ser analisada, não como verdade a repetir.

O mesmo determinismo organiza a leitura que o romance propõe de Jerônimo: o clima, a comida, a música e o convívio no cortiço o “transformariam”, como se houvesse uma essência portuguesa disciplinada cedendo a uma essência brasileira sensual. É um esquema de oposições nacionais tratado como lei natural — e vale examiná-lo como tal, não repeti-lo como explicação válida do comportamento humano.

Jerônimo, Rita Baiana e os limites da tese do meio

Jerônimo entra na história como o oposto de João Romão pela virtude: trabalha, poupa, não bebe. O romance então o dissolve: ele perde o método, afasta-se de Piedade, e participa da morte de Firmo. A trajetória é a demonstração central da tese naturalista — mude o meio e o caráter cede.

Mesmo dentro dessa lógica, porém, as escolhas de Jerônimo continuam sendo dele: é ele quem decide se aproximar de Rita, quem opta por gastar em vez de poupar, quem participa da violência contra Firmo. Ler sua transformação só como efeito mecânico do ambiente apaga essas escolhas; ler apenas como falha moral pessoal ignora a insistência do próprio romance no papel do meio. As duas coisas coexistem no texto.

Rita Baiana é construída pelo narrador por meio de música, dança e uma sensualidade descrita como típica de sua origem baiana e de sua mistura racial — inclusive com a generalização “voluvel como toda a mestiça” já discutida. Isso é a construção do narrador, não uma descrição neutra de quem ela é: o romance dá a Rita presença social real no cortiço (é ela quem inicia e sustenta o relacionamento com Firmo, quem se aproxima de Jerônimo, quem convive com as outras mulheres), mas não dá acesso à sua interioridade além do que essa lente naturalista permite ver.

Pombinha, Léonie e os caminhos fechados para uma mulher

Pombinha é a moça mais instruída do cortiço, prometida em casamento por interesse econômico da mãe, Dona Isabel. Antes mesmo de Léonie entrar na história, o destino de Pombinha já estava sendo decidido por outra pessoa.

Léonie, cocote de luxo e madrinha de Pombinha, leva a afilhada e Dona Isabel à própria casa; ali, isola Pombinha, afasta a mãe (que adormece após vinho que não está habituada a beber) e a submete a um assédio que a deixa confusa e assustada, sem que ela consiga entender o que sente. O romance não trata essa cena como uma libertação nem como um simples pecado: descreve o desconforto real de uma jovem manipulada por alguém mais velha, experiente e em posição de confiança.

Chamar a trajetória de Pombinha de “moça inocente corrompida” simplifica o que o romance mostra: em nenhum momento de sua vida — no casamento arranjado, na cena com Léonie, na vida que leva depois — é ela quem decide o rumo com liberdade real. O que muda, capítulo a capítulo, é apenas quem decide por ela.

O final: respeitabilidade, ironia e o preço da ascensão

No desfecho, João Romão avisa os antigos donos de Bertoleza e finge surpresa na frente dos próprios empregados quando eles chegam para buscá-la: “Pensei que fosse livre...”, diz — sabendo perfeitamente que a alforria era obra sua. Bertoleza, cercada, “adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre”: ela compreende com clareza total que foi enganada e que o próprio companheiro, sem coragem para matá-la, prefere devolvê-la ao cativeiro. Ela se mata com a própria faca de cozinha.

No mesmo instante, chega à porta uma comissão de abolicionistas, em trajes de gala, para entregar a João Romão um diploma de “sócio benemérito”. Ele manda que os recebam na sala de visitas. É a última cena do romance.

A ironia não é sutil, e o romance não pede que o leitor a decifre: é o contraste, posto lado a lado sem comentário adicional, entre o reconhecimento público de um homem como benfeitor da causa abolicionista e o crime privado, coberto por fraude, que ele acabou de cometer contra a mulher que financiou sua ascensão. O romance termina sem punição, sem justiça e sem redenção — só com a cerimônia seguindo seu curso.

Leitura relacionada

  • Dom Casmurro — Publicado nove anos depois, é o Realismo de Machado: o foco está na consciência de um narrador e na ambiguidade, não no meio. Ler os dois lado a lado deixa claro o que separa Realismo de Naturalismo.
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas — O marco inicial do Realismo brasileiro, de 1881. Enquanto Azevedo explica o indivíduo pelo ambiente, Machado o explica pela ironia e pela memória — mesma época, projetos opostos.

Personagens principais

João Romão
Vendeiro português. Constrói a fortuna furtando material, dormindo sobre o próprio balcão para não gastar e, sobretudo, apropriando-se do dinheiro e do trabalho de Bertoleza, a quem administra como “Activo e passivo”. No fim, forja a devolução dela à escravidão para poder casar-se na burguesia.
Bertoleza
Mulher negra escravizada por um senhor ausente. Já juntava sozinha o dinheiro da própria alforria quando conhece João Romão, que assume o controle de suas finanças e lhe entrega uma carta de alforria forjada por ele mesmo. Sustenta com o próprio trabalho a ascensão dele, acreditando-se livre. No final, compreende com total lucidez que foi enganada e se mata para não voltar ao cativeiro.
Miranda
Comerciante português, vizinho de sobrado, cujo crédito comercial depende do dote de Dona Estela — o que explica por que permanece casado apesar da traição dela. Recebe o título de Barão do Freixal. É o modelo de respeitabilidade que João Romão inveja e, aos poucos, imita.
Rita Baiana
Mulher baiana cuja chegada muda o cortiço. O narrador a constrói por meio de música, dança e uma sensualidade explicitamente ligada, no texto, a estereótipos raciais do período (inclusive a generalização “volúvel como toda a mestiça”) — construção do narrador, não descrição neutra. Sustenta relação marcada por ciúme e violência com Firmo antes de se envolver com Jerônimo.
Jerônimo
Operário português, a princípio sóbrio e disciplinado, encarregado da pedreira. Aproxima-se de Rita Baiana e se afasta de Piedade, do trabalho e da disciplina; participa da morte de Firmo. O romance atribui essa mudança ao “meio”, mas suas escolhas concretas continuam sendo dele.
Piedade de Jesus
Mulher de Jerônimo. Abandonada, entrega-se ao álcool e à decadência — o custo doméstico da mudança do marido, tratado pelo romance sem comentário indignado, mas sem minimizar o abandono.
Pombinha
Moça mais instruída do cortiço, prometida em casamento por interesse econômico da mãe. Isolada e assediada pela madrinha, Léonie, numa visita à casa desta; casa-se, depois deixa o marido e passa a viver da própria sexualidade na cidade. Em nenhum momento de sua história é ela quem decide livremente o próprio destino.
Léonie
Cocote de luxo, madrinha de Pombinha. Numa visita, isola a afilhada, afasta a acompanhante e a submete a um assédio que a deixa confusa e assustada — episódio central na trajetória de Pombinha, tratado pelo romance sem que a jovem tenha meios de compreender ou resistir plenamente ao que vive.
Firmo
Homem mulato, oficial de torneiro e capoeira, companheiro de Rita Baiana numa relação marcada por ciúme e violência doméstica explícita no texto. Rival de Jerônimo; é emboscado e morto.

Temas principais

Determinismo: hereditariedade, raça e meio
O romance parte da ideia de que o ambiente e a origem decidem o destino das pessoas. É a hipótese do livro, não um dado — e reproduz teorias raciais do século XIX que hoje se leem como ideologia da época.
Exploração do trabalho e da escravidão
A fortuna de João Romão é feita do trabalho não pago de Bertoleza, obtido por fraude documentada, e do suor dos inquilinos. A ascensão de um se ergue sobre o corpo de outra, literalmente na cena final.
Ascensão social e imitação da burguesia
Subir, para João Romão, é deixar de ser cortiço e virar sobrado: trocar Bertoleza por Zulmira, a venda pelo título. O livro mostra o preço moral dessa troca.
O coletivo acima do indivíduo
As paixões e decisões dos personagens aparecem como efeito de uma força maior — o cortiço, a multidão, o instinto. O protagonista real é o ambiente, ainda que escolhas individuais continuem visíveis dentro dessa moldura.
Raça e generalização narrativa
O narrador atribui traços de caráter a categorias raciais como “cafusa” e “mestiça”, apresentando-os como leis da natureza. O romance expõe essa lógica; este guia a analisa como ideologia do século XIX, não como fato.
Sexualidade no discurso naturalista
O desejo move a trama (Jerônimo e Rita, Pombinha e Léonie) e é tratado pelo narrador como energia da natureza — uma tese do romance, não uma explicação científica válida hoje.
Respeitabilidade e hipocrisia
Miranda compra um título; João Romão recebe, no exato momento do seu crime, uma homenagem abolicionista. O romance mostra a respeitabilidade pública como algo que se compra e se performa, não como reflexo de caráter.
Violência doméstica e disputa por posse
As relações de Firmo com Rita e de João Romão com Bertoleza envolvem, de formas diferentes, controle e violência sobre o corpo de uma mulher — tratados pelo romance sem eufemismo.

Passagens importantes

A fraude da alforria

João Romão ganha a confiança de Bertoleza, assume suas finanças e, tempos depois, forja uma carta de alforria com selo reaproveitado, celebrando a “liberdade” dela com vinho do Porto.

É o mecanismo exato da exploração central do romance: não um roubo súbito, mas uma manipulação lenta que transforma confiança e vulnerabilidade em cativeiro disfarçado de liberdade.

O cortiço acorda

A abertura de um dos primeiros capítulos descreve o amanhecer na estalagem: o povo saindo dos quartos, as lavadeiras no tanque, o barulho, a fumaça — tudo narrado como o despertar de um organismo.

É o momento em que fica claro que o personagem principal é o coletivo. O estilo — gente descrita como formigueiro, como vegetação — anuncia a tese naturalista.

“Como toda a cafusa”: a generalização racial do narrador

Ao explicar por que Bertoleza se uniu a um português, o narrador afirma que ela agia “como toda a cafusa”, buscando instintivamente um homem de “raça superior à sua”.

É a formulação mais direta, no romance, de determinismo racial apresentado como fato científico — precisa ser citada e nomeada como o que é, não repetida como descrição neutra de Bertoleza.

A festa e Rita Baiana

Num domingo, Rita Baiana volta ao cortiço e há dança, música e bebida. Jerônimo, que até então só trabalhava, fica fascinado.

É o ponto de virada de Jerônimo e a demonstração do argumento do livro: o meio — o clima, a música, o desejo — começa ali a desmontar um caráter que parecia sólido.

A visita à casa de Léonie

Pombinha e Dona Isabel visitam Léonie; esta afasta a mãe com vinho e isola a afilhada, submetendo-a a um assédio que a deixa confusa e assustada.

Mostra, sem necessidade de detalhe gráfico, como o corpo e a sexualidade de Pombinha são administrados por outra pessoa nesse momento decisivo — como em quase toda a sua história.

A morte de Bertoleza

João Romão entrega Bertoleza aos antigos donos, fingindo surpresa diante dos próprios empregados. Cercada pela polícia, ela compreende com total lucidez a traição e se mata com a própria faca de cozinha.

O texto concede a Bertoleza, nesse instante, plena consciência da própria situação — não confusão, não passividade — antes do único ato que ela decide inteiramente por si.

A comissão abolicionista

No exato momento da morte de Bertoleza, chega à porta uma comissão de abolicionistas, em trajes de gala, para entregar a João Romão um diploma de “sócio benemérito”.

É a ironia final do romance, posta lado a lado sem comentário: o reconhecimento público de um “benfeitor” coincide, segundo a segundo, com o crime privado que ele acabou de cometer.

Perguntas para reflexão

Use as perguntas para guiar a sua leitura — não há respostas prontas.

  1. O título é o nome de um lugar, não de uma pessoa. Por que o romance faz do cortiço o personagem central, e o que isso muda na forma de ler as ações dos moradores?
  2. João Romão constrói a fortuna sobre furto e sobre o dinheiro de Bertoleza. Por que é impreciso explicar isso apenas como “ambição” ou como traço da sua nacionalidade?
  3. O narrador afirma que Bertoleza agia “como toda a cafusa”. O que essa frase revela sobre a diferença entre o que o romance diz e o que este guia está disposto a repetir como fato?
  4. A transformação de Jerônimo é apresentada como efeito do meio. Até que ponto o livro convence de que o ambiente “explica” o comportamento — e onde essa explicação vira estereótipo?
  5. Rita Baiana é construída pelo narrador através de música, sensualidade e raça. O que se sabe sobre ela além dessa construção — e o que permanece inacessível ao leitor?
  6. A cena de Pombinha na casa de Léonie é chamada, às vezes, de “corrupção” de uma moça inocente. Por que essa leitura simplifica o que realmente acontece com ela ao longo do romance?
  7. Compare o cortiço com o sobrado de Miranda. O que cada espaço representa, e por que João Romão passa o livro olhando para o lado de lá?
  8. O romance foi publicado em 1890, dois anos depois da Abolição. Como a chegada da comissão abolicionista no exato momento da morte de Bertoleza ajuda a entender a crítica do livro?
  9. Bertoleza quase não fala e quase não decide nada até o fim, quando o texto lhe concede plena lucidez sobre a própria situação. O que esse contraste revela sobre o lugar que o romance reserva a ela?

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